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13 de agosto, aniversário de vida de Helena Meirelles

Helena MeirellesHelena Pereira Meirelles nasceu em Campo Grande no ano de 1924, na sexta-feira 13 de Agosto na fazenda Jararaca e morreu em 28 de Setembro de 2005.

Hoje estaria, Helena, completando 85 anos de vida, 85 anos de muita história e muitas “curiosas” passagens enquanto mulher, musicista e “brasiguaya”.

Helena morou no estado de Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul) por quase toda sua vida. Saiu de casa aos 14 anos de idade para poder tocar violão, coisa que a família não aceitava (por parte dos pais), além de não aceitar submeter-se às vontades do Pai.

Criou-se na zona até seus 70 anos, praticamente. Figurou-se como instrumentista renomada na região de Porto Epitácio (Mato grosso do Sul), ganhou a vida em suas andanças entre Aquidauana, Presidente Epitácio e, também, com suas idas para “além” das fronteiras, coisa que não era bem vista e muito menos aceita pelos aristocratas da região fronteiriça de Mato Grosso. (Já que, até meados de 1960, qualquer paraguayo que adentrasse o estado de Mato Grosso era morto imediatamente após sua topada com algum “justiceiro” a serviço dos fazendeiros [que recebiam instruções ainda fomentadas pelos pós-guerra das autoridades locais].

A vida como instrumentista começou cedo, aos 9 anos de idade, quando muito olhava com paixão seu avô, Marco Vaz Meirelles, abrigar os paraguayos que transcendiam o limite da fronteira e tentavam ganhar a vida no Mato Grosso do Sul, sendo o único da região a dar pouso e a criar laços de amizade com paraguayos, o avô de Helena mal sabia o que acabara de plantar em sua neta.

Helena passava horas vendo e ouvindo os paraguayos, que sempre levavam seus violões junto de suas tralhas e em todo e qualquer tempo livre se punham a tocar seus “rasqueados” (nome que a Helena vai usar o resto da vida para o que,  para alguns, seria a “polca paraguaia”), com o violão acompanhamento e o violão solo.

Os paraguayos se embrenharam como boiadeiros e tentaram levar adiante suas vidas, mas, como se esperaria de um ambiente absolutamente hostil e nada conectado a centros urbanos, os paraguayos foram mortos e Helena, até o fim de sua vida, deu muito, muito crédito a esses paraguayos que, segundo ela, foram seu “professores de olhar”. Após vencer alguns preconceitos, através da ajuda do tio e do irmão (Álvaro Meirelles) Helena consegue, ainda criança, tocar pelas bandas de Campo Grande com seu tio e irmão, em festas de aniversário, casamentos e todos eventos que pudessem oferecer oportunidades de tocar no meio “de gente”.

Com o afastamento do tio e do irmão, Helena enfrentou sérios problemas com a família, que ameaçava amputar-lhe os dedos para que não tocasse mais [tocar era de uma conotação masculina ABSURDA e qualquer mulher que se propusesse a tocar estaria se rebaixando a nível de vagabunda] e, como dito, foi “viver a vida como bem queria” e ela queria tocar. E, para poder tocar, foi ter a vida na zona onde todos dela gostavam, onde lhe davam tiros no forro dos barracões de acurí, onde um sapukay sempre precedia uma briga de faca e o tiroteio por causa de rolos de arame farpado.

Helena cresceu num “sertão bruto” (como a mesma dizia) e, talvez por isso, tenha se feito como uma mulher forte. Decidida (e até “grossa” em alguns casos) e completamente independente, peitando preconceitos de gênero e sociais em todo seu ambiente de vida.

Sumida 32 anos de sua família, tendo 11 filhos, ficou apenas com 2 e quando resolveu mudar sua “vida” resolveu voltar à família e é aqui que a História de Helena Meirelles “a Dona Helena, violeira das palhetas de chifre” toma corpo de fato.

Vindo para Santo André, Helena vem a morar com sua irmã, conhecendo seus sobrinhos Mário Araújo e Milton Araújo que já eram músicos adolescentes mas de bastante bagagem cultural e que se espantavam com as histórias da “tia ovelha negra da família” que tocava viola e violão com palhetas de chifre e que nem mesmo um tiro de 38 fazia ela assustar e parar uma música no meio.

Vendo uma senhora de 67 anos tocando viola (a Helena tocava diversos instrumentos. Violino, gaita-de-boca, violão, cavaquinho, bandolim, o que importa é a afinação e não o instrumento em sí) de um jeito absolutamente peculiar, nunca antes vista ou sequer demonstrado pela mídia ou por qualquer violeiro que tivesse gravado alguma coisa, Mário de Araújo acreditou piamente que estava diante de uma virtuose rara de uma tradição, de uma concepção musical quase extinta. E Helena era, de fato, a última gota de um cancioneiro à beira de se apagar do diálogo “despatriado” do que, hoje se chama  Paraguay / Mato Grosso do Sul.

Mário era guitarrista, adorava blues e jazz e sempre lia a famosa “Guitar Player” e por alguma loucura repentina, acreditava que sua tia tocava muito mais do que se tinha noção de instrumentos de cordas, tracionalmente executados em território brasileiro. Fez, então, algo que seria fruto de muitos bons tempos:

Em uma pequena caixa, colocou uma palheta de chifre de boi feita por Helena, um gizo de cascavel de 7 gomos, uma fita DEMO de 3 músicas gravadas com a Helena (onde ele fazia base no violão [aprendeu da Helena em como bater o “rasqueado”] e Milton Araújo no baixolão acústico) e também uma boa biografia de Helena. Mandou essa “caixinha” para a edição da Guitar Player.

Enquanto isso acontecia, tratou de tentar engatar a Helena para realização de shows, pois acreditava no potencial da tia em se mostrar uma digna instrumentista de respeito e admiração. Mas… não foi coisa fácil.

Encontrou muito preconceito pois alegavam que ela era velha, logo supunham que ela não tocasse bem, que era analfabeta, que era mulher (até hoje, ela é a ÚNICA mulher que tocou viola de uma forma totalmente autoral e não se escorou em ninguém para realizar ser trabalho perante o cenário musical) e que tocava de um jeito “diferente” e que isso, portanto, não daria público.

No entanto através de muita insistência, Mário consegue uma apresentação em um teatro de São Paulo e consegue, através do espetáculo, tirar produtores do sério.

Revista Guitar PlayerHelena, acompanhada por Mário e Milton, toca no Viola Minha Viola, é alvo de programas de TV, entrevistas e, ainda, acaba sendo reconhecida pela Guitar Player como algo esplêndido, excepcional no quesito de técnicas de variações de palhetadas, de utilização de registros agudos e é outorgada como uma das melhores instrumentistas do mundo pela revista estadunidense “Guitar Player”.

Após o aval da revista Guitar Player a Helena, de fato, “quebra” as barreiras impostas pelo meio midiático e, mesmo, musical que existiam.

A TV, os teatros, as gravadoras, todos querem Helena Meirelles tocando sua viola Del Vecchio dinâmica imitando o guaxo, a araponga, contando passagens de sua vida no Mato Grosso na década de 30, explicando que mais falava guarani do português na zona de porto 15 (Porto Epitácio).

O “rasqueado de Mato Grosso”, como a mesma chamava, era o nome dado ao ritmo que ela executava. Tocando temas que não se tem relato ALGUM, um cancioneiro mais antigo que Félix Pérez Cardoso, Hermínio Gimenez e todos paraguayos “desenvolvedores” da Kyre’y (polca paraguaya), detentora de temas que só conhecemos por causa da Helena que represente, hoje e sempre, uma técnica perdida que até hoje é negligenciada por músicos brasileiros (principalmente os próprios violeiros), uma feminilidade forte e insuperável, uma independência das noções de “pátria” e civilização, levando nas “três cordas” (como ela chamava, freqüentemente, a afinação de solo) todo “rasqueado de Mato Grosso” pro Brasil e pro mundo conhecer. Mesmo sendo mulher, por isso também, sendo excluída por violeiros e brasileiros pelo resto de sua vida.

Ela foi a última a tocar com palhetas de chifre de boi, a tocar temas que só sabemos que existem como instrumentais, um cancioneiro raro, instrumental e… nem brasileiro, nem paraguayo, mas humano e, talvez, tão brasileiro quanto paraguayo.

Foi a última a tratar a “três cordas/três dedos”, solando horizontalmente suas músicas no enterno vai e vem e no eterno tremer irregular de suas palhetadas sempre imprevisíveis.

Foi a prova de que Brasil e Paraguay, desde muito antes de Mário Zan (por exemplo),  já estavam em infusão cultural há tempos e tempos… Antes de existir Brasil ou Paraguay, estavam lá os mamelucos, as cordas, a harpa, o violão, os guarakys, os machitara-guarani, os paiguás, os guaykurus, o chaco e tudo que podia provir como ferramentas de apropriação material para a produção sonora de uma autêntica música resultado da violência colonial, da sapiência aborígine e, nesse caso, chamemos de “rasqueado”, kyre’y ou “polca paraguaya” (ainda que seja um nome nada adequado, devido a incoerência do rasqueado com a polca européia, cronológica e metricamente).

Helena usou viola, violão. Morreu tocando violão, pois já estava bastante fraca e o violão exigia menos esforços dela. Mas, como dito, tanto um quanto o outro, a concepção é a mesma já que o começo e o fim do “rasqueado” se dá pela afinação do solo (e pelo solo) que, aqui registro e deixo como lembrança e manifesto, as “três cordas”.

Hoje estamos eu e o Milton Araújo (que começou a tocar viola nesse estilo) tentando dar continuidade ao que a Helena demonstrou vivo e ao que o Álvaro Meirelles (irmão da Helena, que tocava tanto quanto ela) mostrou estar tão real quanto fresco, ainda que fosse numa cidade cinza, de muitos barulhos e infindáveis preconceitos.

Gravou
- Helena Meirelles (1994)
- Flor de Guavyra (1996)
- Raíz Pantaneira (1997)
- Ao Vivo – De Volta ao Pantanal (2003)

* Rasqueado é o nome dado à batida usada pelos antigos boiadeiros sul matogrossenses à suprir todas cadências das “polcas paraguaias” (galopas, canções e etc) utilizando uma só técnica de batida que, posteriormente, também foi usada para suprir as necessidades rítmicas do chamamé. Já que não se sabia bater a “polca” como os paraguayos faziam ou o “chamamé” (pós 1950) como os correntinos, se batia o rasqueado e se encaixava tudo e por aí seguiam os barulhos necessários de muita dança e apito da boiaderama.

* Três cordas é o nome da afinação dada pela helena ao padrão de afinação no violão/viola solo. (enquanto o violão acompanhamento se afinava na afinação natural em quartas que ainda se afina hoje).

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Artigo escrito por Rainer Miranda Brito, acesse seu perfil em Chamigos.com:
www.chamigos.com/profile/rainermiranda

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Entrevista: A pantaneira que detonou na Guitar Player
Filme | Documentário:  Dona Helena [Dainara Toffoli] (2004)

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Vídeos de Helena Meirelles

Cavalito


Trailer do Filme “Dona Helena”

“Eu só queria ser eu! Eu sou dona do meu nariz e da minha direção.”

Helena Meirelles faleceu em 2005, doze anos depois de ter sido “descoberta” pela revista norte-americana Guitar Player, que a colocou entre os 100 melhores guitarristas do mundo, ao lado de músicos como Roger Waters e Eric Clapton. Dona Helena nasceu no sertão do Brasil e desde criança era apaixonada pela viola. Passou a sua juventude entre comitivas de boiadeiros e prostíbulos, lutando pelo direito de tocar. Analfabeta, virou estrela no Brasil. Sua história e sua arte são mostradas neste documentário obrigatório para os amantes da música.

Dona Helena – DVD
Ano de Lançamento: 2007
Direção: Dainara Toffoli
País/Ano de Produção: Brasil – 2004
Duração: 55 Minutos
Faixa Etária: Livre
Idiomas: Português
Áudio: Dolby Digital 2.0
Legendas: Português, Inglês, Espanhol e Francês
Formato da Tela: Letterbox

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Artigo escrito por Rainer Miranda Brito, acesse seu perfil em Chamigos.com:
www.chamigos.com/profile/rainermiranda

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Comentários (2)

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  1. Horacio Alberto Lagleyze disse:

    Estimados hermanos brasileños, soy un amante del folklore de todos los paise de nuestra patria grande (Latinoamérica), pero cuando ustedes escriben en portugues, o los hermanos paraguayos en guaraní, u otros en aimará o en mapuche, es imposible poder aprovechar la inmensa riqueza espiritual de las almas de sur américa, para quienes no dominamos esas lenguas originarias.
    Por favor, junto a su lengua, tradúzcanla al español, para que todos tengamos acceso a esas caricias espirituales que son nuestras historias, leyendas y poemas. Gracias. Tito Lagleyze. Comodoro Rivadavia, Chubut. Patagonia Argentina.

  2. Buena pagina, me gustooo

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